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Spyglass a salvação de Rough Towers

1871. 20 de Agosto de 1871. O dia iniciava com uma manhã amena e a lua estava no seu apogeu, completamente cheia com 13 dias, 4 horas e 24 minutos. O relógio batia as 7 horas e 30 minutos quando por entre processos silenciosos e odores a fumo de carvão, pintalgados de um aroma a jasmim, se ouviu o choro de Gerard: Letty tinha dado à luz um menino. Gerard nascia assim num dia amaldiçoado. Amaldiçoado pelos deuses e pelos homens. E abandonado por ambos.

Ao longe, uma embarcação fazia ouvir o seu apito estrondoso por toda a Sealand, e estrondoso foi o som da explosão que fez com que todo o laboratório de Radyll, pai do então recém-nascido Gerard, fosse pelos ares.

MacGuire apareceu, quase sem fôlego, no extremo da casa de Radyll e bateu com todas as forças que tinha até uma voz o convidar a entrar.

– O que se passa homem? – Perguntou Radyll sentado à espera de notícias do filho.

– Sr. Radyll, o seu laboratório . . .

– O que tem o meu laboratório?

– A explosão que se ouviu, Sr….

Com uma raiva nunca vista, Radyll abandonou a cadeira de baloiço e por entre um ramalhar de palavras que se sucediam em catadupa avançou na direcção do laboratório numa correria desenfreada.

A embarcação Nautyl levantava velas e de vento em popa iniciava agora a sua viagem para LandHO, outra das três ilhas que faziam parte de Rough Towers, a plataforma que havia sido erigida no meio do oceano havia anos para funcionar como prisão e que nunca tinha chegado a ser utilizada para o fim para o qual tinha sido criada.

Radyll atravessava o cais a uma velocidade estonteante, juntando-se a ele outros que eram convocados por onde passava, com vista a uma ajuda no combate à calamidade que se havia abatido sobre o seu local de trabalho. Poucos minutos tinham passado quando Radyll deu de caras com todo um universo de pesquisa em chamas. Os líquidos utilizados nas suas experiências, alguns inflamáveis, estavam a alimentar todo aquele cenário de terror.

Impotente, mesmo com a utilização de uma espécie de canhão de água inventado pelo grande Joe Hands e melhorado pelo próprio, a Radyll não mais restava do que olhar para o fogo a consumir todo um mundo de pesquisas e anos de árduo trabalho.

No dia seguinte ao desastre, Radyll voltou ao local, na esperança de encontrar algo que pudesse recuperar, mas a procura foi toda ela em vão. Ainda saía fumo dos escombros e a única coisa percetível era o local onde se situava a sua secretária, feita por ele em metal. Um dos seus amigos, e concorrente no mundo das invenções, engendrara uma máquina que por meio de uns ímanes, uns altifalantes e juntamente com uma série de rodas dentadas, produzia um som quando estava perto de metal. Com a ajuda do seu amigo e desta máquina detectora, percorreram toda a extensão na esperança de encontrar algo de valor.

Qual não é o espanto de Radyll quando a máquina emite um som sobre um amontoado de cinzas.

– Isso que dizer que existe metal aí? – Disse Radyll prontamente – Vamos lá ver se é algo de interessante!

– Assim o espero, pois foi para este efeito que a concebi.

– Mas existe muito metal por aqui. – Disse Radyll, sem esperança de encontrar fosse o que fosse.

– Sim, mas esse está à vista e este não.

Sem perceber muito do que se estava a passar com o dito detector, foi ao encontro do seu amigo e da estranha máquina. Agachando-se sobre o monte de cinzas e com a ajuda de um tubo remexeu-as até se ouvir o som metálico embater com outro metal. Colocou então o tubo no chão à sua direita e com as mãos afastou a cinza até encontrar uma caixa de uns 10 por 5 cm.

Olhou-a fixa e demoradamente. De momento não se recordou o que poderia ser, mas como que por magia foi invadido por um calafrio que lhe percorreu toda a espinha.

Colocou os óculos que trazia presos por uma correia de cabedal ao casaco e regulando as lentes tentou ler a inscrição que a caixa continha. Depois de a limpar um pouco mais, assim como as lentes à fralda da camisa, conseguiu por fim ler: Jack Garrick.

Riu por breves instantes, tão breves que nem deu por isso. Colocou a caixa na bolsa de cabedal que trazia pendurada à cintura e sem dizer sequer obrigado ao amigo pegou no seu windcar (um carro movido com uma mistura que o próprio tinha inventado, apetrechado com uma ventoinha na parte traseira para diminuir o consumo) e conduziu-o rumo a casa.

17 anos depois . . .

Gerard estava deitado, de olhos abertos, a afagar os seios de Laddy Lia, que se encontrava completamente nua ao seu lado. Por entre a transparência dos cortinados da janela do hotel, com aquecimento central a vapor, via-se a Torre Eiffel. A tarde estava calma. Estava uma mão a afagar um seio enquanto a outra aparecia por entre as suas pernas, quando, abruptamente, são interrompidos por dois homens que Gerard nunca tinha visto.

Empoeirados, de óculos redondos, armas de disparo longo, pistola em punho e voz colocada, diz um deles:

– És tu o Gerard, filho de Radyll?

Nesse instante já Gerard se encontrava de pé com a sua mais recente invenção (pistola automática de múltiplos canos, na qual cintilavam os cães de aço e os respectivos cartuchos de latão amarelado) e que talvez pelo aspecto demoveu os seus interlocutores que baixaram as suas rudes pistolas e num tom mais moderado disseram:

– Calma aí amigo, nós só queremos conversar.

– Conversar? – Disse Gerard num tom inquisidor. – E vêem aqui de armas em punho?! Que raio de conversa querem vocês?

– O nome Jack Garrick, diz-te alguma coisa? – Perguntou o mais entroncado dos dois.

– Porque me haveria de dizer?

– Não podes responder, simplesmente, à pergunta?

– Jack Garrick! Não, nunca ouvi tal nome.

Os dois homens entreolharam-se e o mais novo tomou posição.

– Jack Garrick era teu tio, irmão da tua mãe. Tens a certeza que nunca ouviste tal nome?

– Meu tio – indagou-se – não nunca ouvi.

– Já alguma vez estiveste em Londres?

– Londres, Inglaterra?

– Sim.

– Não – falou devagar e num tom hesitante. – mas a que propósito Londres é para aqui chamada?

– A nossa missão é levar-te até lá.

Inglaterra, a promessa não deixava de ser tentadora. Com um impulso coloca a pistola pronta a disparar e aponta-a na direcção dos dois homens.

– Calculávamos que essa fosse a tua posição, como tal trouxemos reforços.

– Reforços, como assim? – Perguntou Gerard, a tentar prever o próximo passo dos interlocutores.

– Miss, importa-se de se tapar? – disse o mais entroncado.

Laddy Lia obedeceu prontamente e pegando no lençol tapou o corpo e recolheu-se a um canto do quarto.

Os dois homens que anteriormente bloqueavam a porta deram um passo atrás permitindo assim a entrada de alguém.

Gerard voltou a verificar se a arma estava carregada e pronta a disparar e apontava-a na direcção da porta.

Envolta numa espécie de capa e de cabeça baixa uma mulher entrou acompanhada por mais dois homens completamente armados. Levou a mão ao capuz e puxando-o para trás eis que revela a sua identidade.

Gerard, ficou atónito e quase sem respiração.

– Mãe?

– Sim Gerard.

– Que fazes aqui?

– Há quanto tempo meu filho!

Prontamente a arma regressou para uma posição de segurança e dando um passo atrás pegou nas calças que vestiu prontamente, assim como o casaco que havia pendurado das costas da cadeira que estava junto à parede.

– Mãe, que faz aqui? Quem são estes homens?

Um dos homens dirigiu-se a Laddy Lia e entregando-lhe a roupa e uma bolsa com moedas, disse:

– Saia e não volte mais aqui!

Laddy Lia saiu enrolada no lençol sem sequer se atrever a olhar para trás. Um dos homens fechou a porta.

– Podemos falar meu filho?

Gerard puxou da cadeira de onde havia tirado a roupa e entregou-a à mãe, sentando-se de seguida na beira da cama.

– E qual o assunto que a trouxe aqui com tanta protecção?

– Sabes, meu filho, depois que Madhoc e o seu bando tomaram Rough Towers a vida foi difícil e tive de te enviar para França, ali já não era um lugar seguro para tu cresceres.

– Então eu não fui abandonado?

– Não filho, e se me deixares contarei toda a história até ao dia de hoje. Depois podes colocar as questões que quiseres.

– Ok. Também não tenho que fazer.

– Como te estava a dizer, foste enviado para França para te poder salvar. A vida ficou complicada e com a ajuda de alguns amigos formámos uma espécie de resistência da qual hoje sou a líder.

– A mãe, líder de um grupo de resistentes?

– Sim meu filho, coisas da vida. Como estava a dizer, a resistência que hoje chefio está forte, temos muita gente a apoiar e queremos recuperar o que sempre foi nosso, Rough Towers.

– E se tudo está tão bem organizado qual é o problema?

– Os radicais industriais governam sem piedade e sem limitações de qualquer tipo e vão somando vitórias, umas após outras, sem o conhecimento da Rainha. Madhoc, o homem que comanda uma série de soldados para fazerem os trabalhos sujos e à margem da lei, tem um exército apetrechado de armas muito avançadas. Essa pistola que carregas, eles têm semelhantes, mas levam, talvez, dez vezes mais munições, são mais rápidas e chegam mais longe, já não se pode chegar perto deles. Além do mais soubemos pelos nossos infiltrados que estão a fazer munições para penetrar o aço.

– Ui, ui, isso é impossível, impossível de um todo. Como é que um metal consegue atravessar outro?

Gerard baixou os olhos, estava sempre a pensar, a resmungar por entre os dentes, enfim a maquinar sempre qualquer coisa e em breves instantes parecia ter a resposta.

– Talvez seja possível, se for algum tipo de liga que não o chumbo que estamos a utilizar. Sim é isso. – Diz cheio de euforia.

– Estás a ver meu filho, é aqui que tu entras.

– Alto lá, eu não estou a combater essa guerra.

– Mas é a nossa pátria, o nosso lar.

– Mãe, sabes bem que não me consegues convencer, como tal não precisas de te enganar.

Dito isto, a mãe levantou a mão direita e colocou-a dentro do casaco que trazia vestido. Do seu interior fez sair uma espécie de porta cartões, envelhecido e num tom acastanhado. Gerard olhou para o objecto.

– Que queres de mim?

– Os teus conhecimentos! O teu tio, Jack Garrick, foi um dos homens mais inteligentes de que há memória e quando foi assassinado estava a trabalhar num projecto que até há bem pouco tempo não se sabia qual era, mas hoje já sabemos.

– Que projecto é esse?

– Antes de ser assassinado conseguiu entregar ao teu pai uma caixa que continha os seus apontamentos. Essa mesma caixa, curiosamente, esteve na origem da morte de Radyll, teu pai. As coisas complicaram-se, e eu levei a caixa para Inglaterra.

– Sim, mas o que continha a caixa?

– Na caixa estavam os apontamentos do teu tio, mas numa cifra que só agora conseguimos descodificar e finalmente podemos interpretar as suas ideias.

– E os apontamentos são de…?

– Os apontamentos são de uma arma de destruição massiva.

– Uau, e eu que nunca conheci o tio!

– Não conheceste, mas aparentemente herdaste a sua inteligência.

Letty fez-lhe chegar uma folha que havia retirado da pequena caixa.

– O que tens nas mãos é a Folha Ilustrada de Londres, onde os Lordes fazem saber das suas intenções e a ver pelo que aí está, devem-se estar a preparar para algo grande.

– Sim, e…?

– Madhoc domina por completo as Rough Towers, que é o local onde estão a produzir as armas, e o nosso objectivo é recuperar o que é nosso, se os despojarmos de Rough Towers e acabarmos com a produção de armas, poderemos fazer-lhes frente e tentar a nossa sorte. Quem sabe não poderemos chegar à Rainha, que está completamente por fora do que se está a passar.

Gerard ria a bom rir, gargalhada atrás de gargalhada.

– Mãe sabes bem que Rough Towers é quase impenetrável, e se eles possuem as armas que tu dizes possuírem, como vamos fazer?

– Quero que acabes a arma que iniciámos, com base nos apontamentos do teu tio, e juntamente com outras pequenas coisas que temos vindo a desenvolver poderemos vencer.

Gerard sentou-se na beira da cama, a luz ténue deixava ver a severa expressão da sua face. Bateu com a mão na perna. Levou a mão à cara, esfregando os olhos que lhe ardiam da fumaça acre da luz de cálcio. Jogou os cabelos para trás e com um sorriso que deixou os presentes sem palavras, disse:

– Quando partimos?

– Isso que dizer que estás connosco?

– Pronto para partir.

– Nós vamos assim que sairmos daqui. Não queremos que se saiba da nossa presença – disse um dos acompanhantes de Letty.

– Meu filho, há uma balsa que sai de Calais para Dover amanhã ao fim da tarde, aqui está o teu bilhete. É melhor fazeres a viagem sozinho, ninguém sabe quem és em Inglaterra com esse nome.

Gerard olhou o bilhete onde se podia ler William Spyglass.

– Em Dover procuras um dormitório chamado The Red Lion, registas-te e, apontando para o lado para um dos seus acompanhantes, Cliff estará lá à tua espera. Não confies em ninguém.

Cliff estendeu-lhe uma bolsa em couro contendo algumas moedas para fazer face às despesas e sem haver despedidas nem mais demoras cada um seguiu o seu caminho.

Depois da porta fechada baixou a cabeça e só pensava onde se estava a meter. Afinal só tinha 17 anos, bem, quase 18, e toda uma vida à sua frente.

Arranjar bilhete de comboio de Paris até Boulogne-sur-Mer foi tarefa fácil. Contou ao homem da bilheteira que ia visitar uma tia que estava doente, que esta tinha sido mais do que sua mãe e o seu estado de saúde inspirava cuidados, sendo ele o familiar mais chegado da enferma.

De Boulogne-sur-Mer até Calais a viagem fez-se num curto espaço de tempo e sem incidentes. Chegou a Calais ainda a tempo de comer uma Ploughman’s Sandwich e beber uma cerveja antes da partida para Inglaterra. Na taberna deparou-se com algo que ainda não tinha visto e que desde logo lhe chamou à atenção. Um cavalheiro pegou num charuto e acendeu-o com o seu fósforo de repetição, invenção esta que tinha vindo da Suécia. Tanto olhou que levou o pacato senhor a se sentir incomodado e a retirar-se.

A travessia do Passo de Calais fez-se relativamente rápida e a chegada ao The Red Lion foi calma e sem qualquer tipo de interferência. Cliff lá estava sentado numa pequena mesa a beber cerveja.

Entraram no que se assemelhava a um armazém sombrio e empoeirado. Uma porta abriu-se e um vasto mundo de invenções e gadgets estendia-se à sua frente. Entrou com pequenos passos olhando para cima das secretárias que se estendiam ao longo da sala. Na parede do seu lado esquerdo uma série de quadros de ardósia estavam completamente cheios de fórmulas matemáticas. Parou junto a uma secretária onde uma escova de dentes, eléctrica, lhe chamou à atenção. Ao fundo da sala e por detrás de uma enorme cortina estava uma máquina de consideradas dimensões formada por um intrincado de engrenagens interligadas, tubos, depósitos e uma série de manivelas. Foi invadido por uma sensação de estranha beleza.

A mãe de Gerard estava à sua espera, ao fundo do salão.

– É este o legado do teu tio! Esta é uma das partes, a que permite carregar armas portáteis. Vem comigo.

Gerard seguiu-a sem contestar.

Numa outra parte do armazém, reservada a testes, estavam umas armas de pequeno porte e uns fatos pendurados de uns cabides metálicos.

– O problema, meu filho, é manter o disparo. Esta arma ao contrário de outras não dispara munições de chumbo, mas um raio de luz. O problema está em controlar esse raio e é aí que gostaria de ter a tua ajuda.

8 meses depois de muitos testes, eis que surge a solução vinda do árduo trabalho de Gerard, agora chamado de Spyglass, William Spyglass (membro da Sociedade do Intelecto a Vapor e amigo da Rainha Vitória) e de alguns membros da Sociedade e da ajuda de uma série de pessoas que traduziu os apontamentos do seu tio, de físicos e matemáticos e outros que alteraram, diminuíram e aperfeiçoaram as armas portáteis, fazendo desta a verdadeira rainha das máquinas.

Com algum apoio, dissimulado, por parte da Rainha e de um exército bem treinado e equipado, o confronto com Madhoc foi inevitável, e mesmo com as suas avançadas armas, este nada pôde fazer contra as armas de raio de luz da resistência. Rough Towers voltou assim para as mãos daqueles que sempre aí tinham vivido e as intenções dos radicais diminuíram de forma abrupta até se desvanecerem por completo.

Madhoc ajoelhou-se diante dele, sobre a pedra fria. Abriu os olhos e sem pestanejar olhou-o de frente. Spyglass mandou a mão às costas e retirou do cinto uma pistola de cano curto. Abriu-a e depois de retirar uma munição de latão amarelado do bolso da sua jaqueta, introduziu-a na pistola e fechou-a. Ouviu-se um click e o sangue escorreu pela face de Madhoc.